A Viola que guarda o tempo: Wilson Dias e a música que finca raiz na Serra do Cipó
- Dicas na Serra do Cipó

- 25 de jan.
- 3 min de leitura
Antes de ser instrumento, a viola caipira é tal como um território. Ela nasce da madeira, mas aprende a falar com o vento. Mora nas mãos do povo, atravessa gerações e carrega em suas dez cordas uma geografia inteira; contendo rios, serras, festas, crenças, trabalho e silêncio. Em Minas Gerais — e especialmente nas serras que costuram o Espinhaço — a viola não fica só acompanhando a história: ela conta a história.
Na Serra do Cipó, onde natureza e cultura caminham lado a lado, a viola encontra chão fértil. E é nesse chão que o nome de Wilson Dias se inscreve como um dos grandes guardiões da música popular brasileira contemporânea.

Wilson Dias é cantor, compositor e violeiro. Mas, acima de qualquer rótulo, é um cantador de pertencimento. Nascido em Olhos D’Água, no Vale do Jequitinhonha — um dos mais potentes celeiros culturais de Minas — ele traz na obra as marcas da vida em comunidade, da oralidade, das festas religiosas, dos causos e da sabedoria popular que não se aprende em conservatório.
Desde cedo, sua escuta foi ampla e generosa. Do samba ao bolero, do rock ao jazz, Wilson nunca confundiu abertura com perda de identidade. Pelo contrário: soube filtrar influências com o rigor de quem entende que ritmo, harmonia e melodia são fundamentos — e não modismos. O resultado é uma obra que dialoga com o mundo sem jamais abandonar o chão.
Há mais de trinta anos vivendo exclusivamente de música, Wilson construiu uma trajetória rara no Brasil: sólida, coerente e profundamente ética. Uma carreira em que arte, pensamento e vida caminham juntas — sem desafinar.

Na obra de Wilson Dias, a cultura popular não aparece como ornamento estético, mas como estrutura de pensamento. Ele próprio conta a história do “bichinho da fartura”, aprendido ainda criança, aquele pequeno ser que carrega um peso maior do que ele mesmo e anuncia tempos bons e colheitas abundantes. Para o violeiro, a cultura popular é exatamente isso: a locomotiva que conduz o trem da vida.
Está em tudo — no canto, na dança, na fala, na crença, nas soluções simples para problemas complexos. É passado e presente apontando o futuro. E é com esse entendimento que Wilson canta: não para ilustrar o Brasil profundo, mas para ativá-lo.
A presença de Wilson Dias na Serra do Cipó dialoga diretamente com esse espírito. Aqui, sua música encontra eco na paisagem, no modo de viver e na relação íntima entre natureza e cultura. Não por acaso, ele é uma das forças centrais do Projeto Viola de Feira, iniciativa que leva a viola aos espaços públicos, aproxima artistas e comunidade e reafirma a música como experiência coletiva.
Seus discos — entre eles Pequenas Histórias, Outras Estórias, Picuá, Pote – A Melodia do Chão, Mucuta, Lume, Nativo e Ser(tão) Infinito — formam um verdadeiro mapa afetivo de Minas Gerais. Neles estão o sertão roseano, o Vale do Jequitinhonha, o cerrado, as folias, os batuques, os silêncios e as delicadezas que só quem escuta com atenção consegue registrar.
Em Mucuta, por exemplo, a viola guarda memórias como quem guarda sementes. Em Lume, palavra e melodia caminham juntas, convidando o ouvinte a desacelerar. Já em Nativo e Ser(tão) Infinito, a maturidade artística se revela sem alarde, com a serenidade de quem sabe exatamente quem é — e para onde canta.
A música que segue, como rio
A trajetória de Wilson Dias também se entrelaça com a própria família: seus filhos, Wallace Gomes e Pedro Gomes, dividem com ele o palco e os arranjos, mostrando que a música, quando verdadeira, não se encerra — se desdobra.
Essa continuidade aparece também em sua produção mais recente. O single “Maria do Manto”, lançado em 2025, é um exemplo claro disso. Parceria com o poeta Thales Martinez, a canção é uma oração laica dedicada às “Marias” que sustentam o mundo. A viola dialoga com tambores afro-brasileiros, criando uma sonoridade que une tradição, espiritualidade e contemporaneidade, sem perder a delicadeza.
Aos 60+, Wilson Dias não olha para trás com nostalgia, mas para frente com lucidez. Sua música segue aberta, curiosa e necessária — como a própria Serra do Cipó, que se reinventa a cada estação sem perder a essência.
Por que Wilson Dias importa para a Serra do Cipó
Porque ele nos lembra que ecoturismo também é cultura. Que paisagem não é só vista, é escuta. Que proteger a natureza passa, necessariamente, por valorizar os saberes, os sons e as histórias que nascem dela.
Wilson Dias não canta sobre a terra. Ele canta com a terra.
E na Serra do Cipó, essa viola encontra casa, eco e futuro.
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